
A
ARTE DE SE LIVRAR DOS PROBLEMAS SEM RESOLVÊ-LOS
Os
problemas são a mais democrática das instituições.
Não poupam ninguém: pobre ou rico, anônimo
ou celebridade. Quando você pensa que está indo
tudo às mil maravilhas, tcharã... surge um problema!
Enfrentá-los é uma arte. Tem gente que prefere
sentar e chorar à mera aparição de um
deles, sentindo-se a pessoa mais azarada do mundo. Outros
simplesmente fingem que nada está acontecendo.
Por
mais amalucado que pareça, há várias
técnicas para fugir dos problemas. Uma delas é
a de jogar para Deus: você perdeu o emprego, está
devendo grana no banco, sua namorada tá dando mole
praquele amigo bem-sucedido, seu cachorro adoeceu, sua unha
encravou e está doendo pacas. Aí você
diz pra si mesmo: “Quer saber? Vou jogar pra Deus!”.
Não adianta nada, mas dá uma paz...
Uma
maneira ótima de evitar resolver questões importantes
é passar a aplicar os desígnios do destino aos
acontecimentos do dia-a-dia. Por exemplo: você perdeu
aquele concurso para o qual estudou meses a fio,
deixando de dormir noites seguidas e que lhe rendeu uma gastrite
de tanto nervoso. “Ah, era o destino!”, você
pensa. E deixa pra lá.
O
bom de praticar o maktub (“assim estava escrito”
em árabe) como um mantraé que você deixa
de ter decepções. Por que arrancar os cabelos
se estava escrito antes de eu nascer que ia ser assim? O maktub
é uma maravilha que pode ser usada do mais reles chulé
à morte de um ente querido.
Veja:
você chegou a uma lanchonete seco para tomar uma Coca,
mas só tinha Fanta. Em vez de se aborrecer perguntando
no boteco ao lado, você aceita: tudo bem, é o
destino! Deu uma mancada daquelas e perdeu a mulher da sua
vida? Maktub, ué. Nem pense que teve participação
naquilo. Era o d-e-s-t-i-n-o.
PERSONAL
PROBLEMATOR
É
muito reconfortante pensar que fios invisíveis nos
conduzem até os problemas (e até a solução
deles) sem que nada do que façamos interfira. Lá
em cima, as mãos do grande manipulador de marionetes
é que estão guiando tudo... Responsabilidade
zero pra nós.
Outra
estratégia de fuga é criar frases engraçadinhas,
mostrando ser superior às adversidades. Foi demitido?
Arqueie a sobrancelha e filosofe: “O único defeito
do desemprego é a falta de dinheiro”. Uau! Está
na
pindaíba porque gastou mais do que ganha? Diga: “Resolvi
meus problemas com o banco. Cada vez que meu extrato aparece
na tela eu
simplesmente viro o rosto”. Gênio.
Há
mais truques: ligar o botão do foda-se; sentar em cima
dos problemas; enfiá-los no congelador; deixar pra
resolver depois das férias; empurrar com a barriga...
Qualquer dia desses alguém inventa um
“personal problemator” para resolver os problemas
em nosso lugar. Vai ficar rico.
Invejo
quem consegue virar avestruz diante de um problema. Eu nem
consigo dormir até que os resolva, como uma equação
difícil do segundo grau. Vi outro dia uma frase da
escritora Patricia Mello no filme O Homem
do Ano (baseado em seu livro O Matador):“A vida é
uma coisa engraçada. Ela vai sozinha, como um rio,
se você deixar. Você também pode botar
um cabresto, fazer da vida o seu cavalo. A gente faz da vida
o que quer.
Cada um escolhe sua sina, cavalo ou rio.”
Não
dá pra ser rio diante de um problema. Pelo menos não
dos que
dependem de nós para serem resolvidos. Tem coisas sobre
as quais nada podemos fazer a não ser torcer: um caso
de doença na família, um amigo deprimido ou
a fome no mundo. Outras dependem de mexermos
os pauzinhos – e não o destino. Sabe esse lance
de “deixa a vida me levar”? Só funciona
em letra de pagode.