Chile
Vida boa, vida lôca
Vinhos,
mariscos, compras, bares-barbearia, casas-declaração-de-amor,
piernas afuera e cositas más de Santiago do Chile Valparaíso,
Viña, esqui e um passeio pela Concha y Toro
Quem conhece pela primeira vez o Chile pode achar sua capital,
Santiago, assim, assim. Num país com esqui, geleiras,
vulcões de cones nevados e um deserto de cenários
lunares, Santiago, 6 milhões de habitantes, poluída
e congestionada, parece um estorvo. Mas, além de ser
um lugar para comer e beber bem - graças aos mariscos
e peixes do Pacífico e alguns dos melhores vinhos do
mundo -, Santiago também tem atrações menos
"maduras": baladas escondidas, barbearias que viram
bar, chefs metidos a David Copperfield, sessões de pilates
nas alturas.
A
cidade é descomplicada: os pontos de interesse se concentram
ao largo de uma avenida de quase 30 quilômetros, que troca
de nome ao se aproximar dos Andes. De início é
a Alameda, onde estão os prédios históricos;
depois, as avenidas Providencia, Las Condes e Vitacura, região
de compras caras e badalação. O viajante que começa
sua visita por Las Condes, na zona leste de Santiago, pode ter
uns lampejos de Xangai. Torres de vidro, helipontos, titânio,
aço escovado, tudo ali dá um toque "América
Latina? Me poupe", que a capital chilena exala desde o
começo dos anos 1990, quando abriu braços e pernas
ao capital estrangeiro. Prevista para junho, a inauguração
do primeiro hotel W da América do Sul, a bandeira de
"luxo descolado" da Starwood (rede dos hotéis
Sheraton e Meridien), fala algo sobre a região. A grana
que circula no Chile, um país exportador de commodities
- cobre, basicamente -, atropela antigos vagares da sociedade.
A Lei do Divórcio, promulgada nesta década, já
vai ficando para trás, e na cadeira do velho general
agora está uma mulher que sofreu nos porões. Se
pelas ruas crianças e adolescentes ainda usam uniforme
de normalista, nas festinhas de fim de semana simulam os movimentos
sexuais do perreo, uma dança que faz do funk carioca
ritmo de noviças. Historinha pessoal: em minha primeira
visita a Santiago, em 1994, não consegui fechar uma única
refeição com um reles café expresso. Vinham
à mesa uma lata de café solúvel e uma garrafa
térmica. Hoje Santiago é um playground da Starbucks.
Se a evolução de uma cidade pode ser medida pela
sofisticação de seu consumo de café, Santiago
chegou lá rápido. A seguir, instantâneos
da capital do Chile.
Centro
vapt-vupt. Na região central da cidade está o
Palacio de La Moneda, onde Salvador Allende, o presidente socialista
do país, se suicidou no 11 de setembro (de 1973) local,
e onde há agora um interessante centro cultural no subsolo.
O palácio presidencial abre alguns salões à
visitação, e a troca de guarda, que tinha tudo
para ser o negócio mais tedioso do mundo, é curiosa.
A banda executa um repertório pouco marcial, com direito
até a Gracias a la Vida, de Violeta Parra, hino da esquerda
sul-americana. A catedral, na Plaza de Armas, não desperta
grandes emoções, exceto aos que não dispensam
a foto com aquele pendant clássico da igreja antiga e
o novo edifício comercial espelhado atrás. Há
calçadões e nas galerias adjacentes à Plaza
de Armas proliferam cafés con piernas, onde seu expresso
é servido por garotas de minissaia. Há também
os "con piernas" pesados, de ambientes escuros, em
que as atendentes usam biquínis fosforescentes. Como
Flor, uma colombiana de dez costados, com quem travei o seguinte
diálogo:
- Cuál es su nombre?
- Flor.
- ¡Flor! Y cuál es su flor preferida, Flor?
- La flor carnívora.
Vá
ao museu (não, isso não é obrigação).
Quantas vezes você teve de mentir que, sim, adorou o Louvre
ou que, claro, viu a Pedra da Rosetta (quando passou bem longe
do British Museum)? Bem, em Santiago não há museus
"obrigatórios". O melhor deles é o Chileno
de Arte Precolombino, que tem duas pequenas múmias do
povo chinchorro, que viveu há 7 mil anos no norte do
Chile - as múmias egípcias são 2 500 anos
mais novas -, cerâmicas e painéis didáticos.
Com boa vontade, o Museu de Artes Visuais (Mavi) e a Plaza Mulato
Gil de Castro, onde ele está, têm um sabor do entorno
do Reina Sofia, em Madri. E o Parque de lãs Esculturas,
com 30 peças contemporâneas ao ar livre, entre
árvores, é muito agradável para a sesta.
Comer,
comer. A "cena" gastronômica de Santiago se
beneficia das incríveis qualidade e variedade dos peixes,
mariscos e crustáceos do Pacífico. Nem o pior
cozinheiro é capaz de tirar a maciez de um loco, o molusco
muito carnudo que só existe na costa chilena e peruana
(e, se isso acontecer, você já estará anestesiado
pelos deliciosos pisco sours e pelos tintos da refeição).
E não é nada difícil encontrar um bom ceviche
(o peixe cru peruano), cortesia de emigrados quando Lima ainda
não era "emergente". Um lugar inevitável
para os gastrônomos é o alquebrado Mercado Central,
onde se podem comprar (e comer) piroroco, macha, loco e o horrendo
piure. Quanto mais estranha a aparência, melhor. Mas evite
o ensopado de ouriço, que sabe a amoníaco. À
noite, é na Bellavista que Santiago sai para jantar.
Alguns salões de restaurantes do bairro, como o badalado
El Toro, ficam nas calçadas, como que em gazebos, enquanto
a cozinha e as demais partes das casas estão do outro
lado, à vista dos passantes. Se a sua onda for a cozinha
dita tecnoemocional, o Sukalde, do mexicano Matías Palomo,
vale a visita. O chef trabalhou no espanhol El Bulli, de Ferran
Adrià, onde aprendeu as técnicas de ilusionismo
que usa em seus pratos. Seu "ovo frito" leva na verdade
iogurte, aranja e gelatinas. Mas é um Copperfield de
araque, o Palomo. Se perguntado, entrega a receita.
Mondovino.
Aí é covardia. Se você tem 40 anos ou mais
e já crê, sinceramente, que vinho é a melhor
coisa do mundo, eis a cidade para estar no continente. O Chile,
que na opinião do sommelier Manoel Beato, do restaurante
Fasano, "produz bons vinhos desde a década de 70,
uns bons 20 anos antes da Argentina" faz ótimos
cabernet sauvignon e assemblages. Na hora de comprar, La Vinoteca
e El Mundo del Vino são redes com lojas amplas e variedade
de rótulos. Mas é a El Cielo, no centro, que tem
preços imbatíveis. Leve cash.
Shoppinglândia.
Ao Chile coube a primazia no continente na liberdade tarifária
para produtos importados. Enquanto os vizinhos estatizavam,
o Chile privatizava e recebia alegremente eletrônicos
made in Japan (e telefonia americana, bancos hechos en España
etc.). Na onda, surgiram shoppings gigantes, como o Parque Arauco,
além das ruas de luxo, como a Alonso de Córdova,
onde os preços das grifes Blueberry e Louis Vuitton soam
como música para os brasileiros do quanto-mais-caro-melhor.
Já os brasileiros que preferem ofertas vão adorar
as liquidações de inverno. Roupas infantis próprias
para as alturas dos Andes saem a preço de banana nos
grandes magazines Falabella, Ripley e Almacenes Paris. Melhores
ainda são os preços da Calle Patronato, em lojas
como a System (no número 136) e a KPT (no 250).
Refúgios
verdes. Você sai de uma metrópole populosa, de
trânsito insano, e decide ficar num lugar poluído
(Santiago está entre duas cordilheiras, o que dificulta
a dispersão dos poluentes) com o trânsito de que
queria distância. Mas a capital chilena tem refúgios
verdes como o Cerro San Cristobal, com o melhor mirante da cidade.
Se você estiver por ali num domingo, consiga uma bicicleta
e siga a legião subindo o morro. É possível
ir também de funicular e teleférico. Programa
para o dia inteiro: lá está ainda o Jardim Botânico,
com as 80 espécies nativas do país, e sessões
de ioga e pilates gratuitas, aos domingos, pela manhã.
Muito mais discreto, o Cerro Santa Lucia é o sítio
de fundação da cidade, de 1541. Há escadas,
balaustradas e esculturas com toques neoclássicos. A
subida leva uns 20 minutos. Como o piso é muito liso,
fecha quando chove. Já o Parque Forestal, às margens
do Rio Mapocho, é um longo e estreito bulevar, ótimo
para pedalar. Aos domingos, fica divertido, quando é
invadido por tribos de emos e pokemons que dão um toque
de Tóquio à cidade.
O
Neruda que você nunca leu e mais lugares fofos. As mulheres
saem tocadas de La Chascona, uma das casas do poeta Pablo Neruda
(1904-1973) mantidas hoje como museus (outras estão em
Valparaíso). Projetada pelo próprio Neruda, Nobel
de Literatura em 1971, assemelha-se a um navio. O toque "sensível"
são as marcas de amor entre o poeta e Matilde Urrutia,
dita La Chascona ("A Descabelada"), sua terceira mulher:
fotos, iniciais dos dois em vários ambientes e frases
como esta, cravada na porta: "Matilde mia, bienamada, no
quiero dormir sin tus ojos, no quiero ser sin que me mires:
yo cambio la primavera porque tu me sigas mirando". O guia
Gonzalo Iturra mostra a mensagem com uma devoção
quase filial. "Neruda era un tipo bonachão, tranquilo,
boêmio, gostava da vida e de um uísque", diz.
"Não tinha nada de sisudo." Sem arroubos de
lirismo em suas paredes mas deliciosamente aristocrático,
o Palácio Cousiño, perto da Alameda, é
um lugar que, como no Museu Imperial, em Petrópolis,
é preciso calçar chinelos de feltro para entrar.
Afinal, o piso de cerâmica italiana, pintado a mão,
é delicado. O palácio, cuja construção
começou em 1871, pertenceu à família Cousiño,
dona de uma das vinícolas mais famosas do Chile, mas
que enriqueceu com as minas de carvão. Todo o mobiliário
é europeu, e o lustre do hall central, de 500 quilos,
impactante. Mais algumas quadras e chega-se a uma praça
alongada que, como o Peixoto, em Copacabana, tem status de bairro.
É o charmoso Concha y Toro, com suas ruas de paralelepípedo
e seu conjunto de sobrados neoclássicos. Aproveite e
fique pelo Zully, o restaurante mais romântico da cidade.
O trademark local é a escadaria de mármore branco
pontilhada de pétalas de rosa. Nas noites quentes, o
terraço à luz de velas com vista para a praça
é matador.
Doidas
baladas. Santiago tem uma noite forte, a melhor parte dela vivida
em casas inusitadas. Como o Boulevard Lavaud, que divide os
trabalhos com a Peluquería Francesa, uma barbearia na
ativa desde 1868. O bar espalha suas mesas entre pias de lavar
a cabeça e secadores gigantes.
O economista brasileiro Thales de Freitas é entusiasta.
"Sempre levo meus amigos do Brasil." A cidade também
gosta de esconder suas melhores baladas em imóveis sem
identificação. Como o Ky, um casarão cheio
de ambientes - de um salão para jantar ouvindo mazurcas
a uma pista com um soldado de chumbo de 3 metros entre palmeiras.
A dolorosa chega numa charmosa arquinha de marchetaria. Ao sair,
lá pelas 3 da madrugada, a outra casa sem identificação
a procurar é a La Feria, disco eletrônica com DJs
gringos e esferas que flutuam estranhamente no ar. Qualquer
explicação para o fenômeno a essa hora é
convincente.Centro vapt-vupt. Na região central da cidade
está o Palacio de La Moneda, onde Salvador Allende, o
presidente socialista do país, se suicidou no 11 de setembro
(de 1973) local, e onde há agora um interessante centro
cultural no subsolo. O palácio presidencial abre alguns
salões à visitação, e a troca de
guarda, que tinha tudo para ser o negócio mais tedioso
do mundo, é curiosa. A banda executa um repertório
pouco marcial, com direito até a Gracias a la Vida, de
Violeta Parra, hino da esquerda sul-americana. A catedral, na
Plaza de Armas, não desperta grandes emoções,
exceto aos que não dispensam a foto com aquele pendant
clássico da igreja antiga e o novo edifício comercial
espelhado atrás. Há calçadões e
nas galerias adjacentes à Plaza de Armas proliferam cafés
con piernas, onde seu expresso é servido por garotas
de minissaia. Há também os "con piernas"
pesados, de ambientes escuros, em que as atendentes usam biquínis
fosforescentes. Como Flor, uma colombiana de dez costados, com
quem travei o seguinte diálogo:
- Cuál es su nombre?
- Flor.
- ¡Flor! Y cuál es su flor preferida, Flor?
- La flor carnívora.
Vá
ao museu (não, isso não é obrigação).
Quantas vezes você teve de mentir que, sim, adorou o Louvre
ou que, claro, viu a Pedra da Rosetta (quando passou bem longe
do British Museum)? Bem, em Santiago não há museus
"obrigatórios". O melhor deles é o Chileno
de Arte Precolombino, que tem duas pequenas múmias do
povo chinchorro, que viveu há 7 mil anos no norte do
Chile - as múmias egípcias são 2 500 anos
mais novas -, cerâmicas e painéis didáticos.
Com boa vontade, o Museu de Artes Visuais (Mavi) e a Plaza Mulato
Gil de Castro, onde ele está, têm um sabor do entorno
do Reina Sofia, em Madri. E o Parque de lãs Esculturas,
com 30 peças contemporâneas ao ar livre, entre
árvores, é muito agradável para a sesta.
Comer,
comer. A "cena" gastronômica de Santiago se
beneficia das incríveis qualidade e variedade dos peixes,
mariscos e crustáceos do Pacífico. Nem o pior
cozinheiro é capaz de tirar a maciez de um loco, o molusco
muito carnudo que só existe na costa chilena e peruana
(e, se isso acontecer, você já estará anestesiado
pelos deliciosos pisco sours e pelos tintos da refeição).
E não é nada difícil encontrar um bom ceviche
(o peixe cru peruano), cortesia de emigrados quando Lima ainda
não era "emergente". Um lugar inevitável
para os gastrônomos é o alquebrado Mercado Central,
onde se podem comprar (e comer) piroroco, macha, loco e o horrendo
piure. Quanto mais estranha a aparência, melhor. Mas evite
o ensopado de ouriço, que sabe a amoníaco. À
noite, é na Bellavista que Santiago sai para jantar.
Alguns salões de restaurantes do bairro, como o badalado
El Toro, ficam nas calçadas, como que em gazebos, enquanto
a cozinha e as demais partes das casas estão do outro
lado, à vista dos passantes. Se a sua onda for a cozinha
dita tecnoemocional, o Sukalde, do mexicano Matías Palomo,
vale a visita. O chef trabalhou no espanhol El Bulli, de Ferran
Adrià, onde aprendeu as técnicas de ilusionismo
que usa em seus pratos. Seu "ovo frito" leva na verdade
iogurte, aranja e gelatinas. Mas é um Copperfield de
araque, o Palomo. Se perguntado, entrega a receita.
Mondovino.
Aí é covardia. Se você tem 40 anos ou mais
e já crê, sinceramente, que vinho é a melhor
coisa do mundo, eis a cidade para estar no continente. O Chile,
que na opinião do sommelier Manoel Beato, do restaurante
Fasano, "produz bons vinhos desde a década de 70,
uns bons 20 anos antes da Argentina" faz ótimos
cabernet sauvignon e assemblages. Na hora de comprar, La Vinoteca
e El Mundo del Vino são redes com lojas amplas e variedade
de rótulos. Mas é a El Cielo, no centro, que tem
preços imbatíveis. Leve cash.
Shoppinglândia.
Ao Chile coube a primazia no continente na liberdade tarifária
para produtos importados. Enquanto os vizinhos estatizavam,
o Chile privatizava e recebia alegremente eletrônicos
made in Japan (e telefonia americana, bancos hechos en España
etc.). Na onda, surgiram shoppings gigantes, como o Parque Arauco,
além das ruas de luxo, como a Alonso de Córdova,
onde os preços das grifes Blueberry e Louis Vuitton soam
como música para os brasileiros do quanto-mais-caro-melhor.
Já os brasileiros que preferem ofertas vão adorar
as liquidações de inverno. Roupas infantis próprias
para as alturas dos Andes saem a preço de banana nos
grandes magazines Falabella, Ripley e Almacenes Paris. Melhores
ainda são os preços da Calle Patronato, em lojas
como a System (no número 136) e a KPT (no 250).
Refúgios
verdes. Você sai de uma metrópole populosa, de
trânsito insano, e decide ficar num lugar poluído
(Santiago está entre duas cordilheiras, o que dificulta
a dispersão dos poluentes) com o trânsito de que
queria distância. Mas a capital chilena tem refúgios
verdes como o Cerro San Cristobal, com o melhor mirante da cidade.
Se você estiver por ali num domingo, consiga uma bicicleta
e siga a legião subindo o morro. É possível
ir também de funicular e teleférico. Programa
para o dia inteiro: lá está ainda o Jardim Botânico,
com as 80 espécies nativas do país, e sessões
de ioga e pilates gratuitas, aos domingos, pela manhã.
Muito mais discreto, o Cerro Santa Lucia é o sítio
de fundação da cidade, de 1541. Há escadas,
balaustradas e esculturas com toques neoclássicos. A
subida leva uns 20 minutos. Como o piso é muito liso,
fecha quando chove. Já o Parque Forestal, às margens
do Rio Mapocho, é um longo e estreito bulevar, ótimo
para pedalar. Aos domingos, fica divertido, quando é
invadido por tribos de emos e pokemons que dão um toque
de Tóquio à cidade.
O
Neruda que você nunca leu e mais lugares fofos. As mulheres
saem tocadas de La Chascona, uma das casas do poeta Pablo Neruda
(1904-1973) mantidas hoje como museus (outras estão em
Valparaíso). Projetada pelo próprio Neruda, Nobel
de Literatura em 1971, assemelha-se a um navio. O toque "sensível"
são as marcas de amor entre o poeta e Matilde Urrutia,
dita La Chascona ("A Descabelada"), sua terceira mulher:
fotos, iniciais dos dois em vários ambientes e frases
como esta, cravada na porta: "Matilde mia, bienamada, no
quiero dormir sin tus ojos, no quiero ser sin que me mires:
yo cambio la primavera porque tu me sigas mirando". O guia
Gonzalo Iturra mostra a mensagem com uma devoção
quase filial. "Neruda era un tipo bonachão, tranquilo,
boêmio, gostava da vida e de um uísque", diz.
"Não tinha nada de sisudo." Sem arroubos de
lirismo em suas paredes mas deliciosamente aristocrático,
o Palácio Cousiño, perto da Alameda, é
um lugar que, como no Museu Imperial, em Petrópolis,
é preciso calçar chinelos de feltro para entrar.
Afinal, o piso de cerâmica italiana, pintado a mão,
é delicado. O palácio, cuja construção
começou em 1871, pertenceu à família Cousiño,
dona de uma das vinícolas mais famosas do Chile, mas
que enriqueceu com as minas de carvão. Todo o mobiliário
é europeu, e o lustre do hall central, de 500 quilos,
impactante. Mais algumas quadras e chega-se a uma praça
alongada que, como o Peixoto, em Copacabana, tem status de bairro.
É o charmoso Concha y Toro, com suas ruas de paralelepípedo
e seu conjunto de sobrados neoclássicos. Aproveite e
fique pelo Zully, o restaurante mais romântico da cidade.
O trademark local é a escadaria de mármore branco
pontilhada de pétalas de rosa. Nas noites quentes, o
terraço à luz de velas com vista para a praça
é matador.
Doidas
baladas. Santiago tem uma noite forte, a melhor parte dela vivida
em casas inusitadas. Como o Boulevard Lavaud, que divide os
trabalhos com a Peluquería Francesa, uma barbearia na
ativa desde 1868. O bar espalha suas mesas entre pias de lavar
a cabeça e secadores gigantes.
O economista brasileiro Thales de Freitas é entusiasta.
"Sempre levo meus amigos do Brasil." A cidade também
gosta de esconder suas melhores baladas em imóveis sem
identificação. Como o Ky, um casarão cheio
de ambientes - de um salão para jantar ouvindo mazurcas
a uma pista com um soldado de chumbo de 3 metros entre palmeiras.
A dolorosa chega numa charmosa arquinha de marchetaria. Ao sair,
lá pelas 3 da madrugada, a outra casa sem identificação
a procurar é a La Feria, disco eletrônica com DJs
gringos e esferas que flutuam estranhamente no ar. Qualquer
explicação para o fenômeno a essa hora é
convincente. Comer, comer. A "cena" gastronômica
de Santiago se beneficia das incríveis qualidade e variedade
dos peixes, mariscos e crustáceos do Pacífico.
Nem o pior cozinheiro é capaz de tirar a maciez de um
loco, o molusco muito carnudo que só existe na costa
chilena e peruana (e, se isso acontecer, você já
estará anestesiado pelos deliciosos pisco sours e pelos
tintos da refeição). E não é nada
difícil encontrar um bom ceviche (o peixe cru peruano),
cortesia de emigrados quando Lima ainda não era "emergente".
Um lugar inevitável para os gastrônomos é
o alquebrado Mercado Central, onde se podem comprar (e comer)
piroroco, macha, loco e o horrendo piure. Quanto mais estranha
a aparência, melhor. Mas evite o ensopado de ouriço,
que sabe a amoníaco. À noite, é na Bellavista
que Santiago sai para jantar. Alguns salões de restaurantes
do bairro, como o badalado El Toro, ficam nas calçadas,
como que em gazebos, enquanto a cozinha e as demais partes das
casas estão do outro lado, à vista dos passantes.
Se a sua onda for a cozinha dita tecnoemocional, o Sukalde,
do mexicano Matías Palomo, vale a visita. O chef trabalhou
no espanhol El Bulli, de Ferran Adrià, onde aprendeu
as técnicas de ilusionismo que usa em seus pratos. Seu
"ovo frito" leva na verdade iogurte, aranja e gelatinas.
Mas é um Copperfield de araque, o Palomo. Se perguntado,
entrega a receita.
Mondovino.
Aí é covardia. Se você tem 40 anos ou mais
e já crê, sinceramente, que vinho é a melhor
coisa do mundo, eis a cidade para estar no continente. O Chile,
que na opinião do sommelier Manoel Beato, do restaurante
Fasano, "produz bons vinhos desde a década de 70,
uns bons 20 anos antes da Argentina" faz ótimos
cabernet sauvignon e assemblages. Na hora de comprar, La Vinoteca
e El Mundo del Vino são redes com lojas amplas e variedade
de rótulos. Mas é a El Cielo, no centro, que tem
preços imbatíveis. Leve cash. Shoppinglândia.
Ao Chile coube a primazia no continente na liberdade tarifária
para produtos importados. Enquanto os vizinhos estatizavam,
o Chile privatizava e recebia alegremente eletrônicos
made in Japan (e telefonia americana, bancos hechos en España
etc.). Na onda, surgiram shoppings gigantes, como o Parque Arauco,
além das ruas de luxo, como a Alonso de Córdova,
onde os preços das grifes Blueberry e Louis Vuitton soam
como música para os brasileiros do quanto-mais-caro-melhor.
Já os brasileiros que preferem ofertas vão adorar
as liquidações de inverno. Roupas infantis próprias
para as alturas dos Andes saem a preço de banana nos
grandes magazines Falabella, Ripley e Almacenes Paris. Melhores
ainda são os preços da Calle Patronato, em lojas
como a System (no número 136) e a KPT (no 250).
Refúgios
verdes. Você sai de uma metrópole populosa, de
trânsito insano, e decide ficar num lugar poluído
(Santiago está entre duas cordilheiras, o que dificulta
a dispersão dos poluentes) com o trânsito de que
queria distância. Mas a capital chilena tem refúgios
verdes como o Cerro San Cristobal, com o melhor mirante da cidade.
Se você estiver por ali num domingo, consiga uma bicicleta
e siga a legião subindo o morro. É possível
ir também de funicular e teleférico. Programa
para o dia inteiro: lá está ainda o Jardim Botânico,
com as 80 espécies nativas do país, e sessões
de ioga e pilates gratuitas, aos domingos, pela manhã.
Muito mais discreto, o Cerro Santa Lucia é o sítio
de fundação da cidade, de 1541. Há escadas,
balaustradas e esculturas com toques neoclássicos. A
subida leva uns 20 minutos. Como o piso é muito liso,
fecha quando chove. Já o Parque Forestal, às margens
do Rio Mapocho, é um longo e estreito bulevar, ótimo
para pedalar. Aos domingos, fica divertido, quando é
invadido por tribos de emos e pokemons que dão um toque
de Tóquio à cidade. O Neruda que você nunca
leu e mais lugares fofos. As mulheres saem tocadas de La Chascona,
uma das casas do poeta Pablo Neruda (1904-1973) mantidas hoje
como museus (outras estão em Valparaíso). Projetada
pelo próprio Neruda, Nobel de Literatura em 1971, assemelha-se
a um navio. O toque "sensível" são as
marcas de amor entre o poeta e Matilde Urrutia, dita La Chascona
("A Descabelada"), sua terceira mulher: fotos, iniciais
dos dois em vários ambientes e frases como esta, cravada
na porta: "Matilde mia, bienamada, no quiero dormir sin
tus ojos, no quiero ser sin que me mires: yo cambio la primavera
porque tu me sigas mirando". O guia Gonzalo Iturra mostra
a mensagem com uma devoção quase filial. "Neruda
era un tipo bonachão, tranquilo, boêmio, gostava
da vida e de um uísque", diz. "Não tinha
nada de sisudo." Sem arroubos de lirismo em suas paredes
mas deliciosamente aristocrático, o Palácio Cousiño,
perto da Alameda, é um lugar que, como no Museu Imperial,
em Petrópolis, é preciso calçar chinelos
de feltro para entrar. Afinal, o piso de cerâmica italiana,
pintado a mão, é delicado. O palácio, cuja
construção começou em 1871, pertenceu à
família Cousiño, dona de uma das vinícolas
mais famosas do Chile, mas que enriqueceu com as minas de carvão.
Todo o mobiliário é europeu, e o lustre do hall
central, de 500 quilos, impactante. Mais algumas quadras e chega-se
a uma praça alongada que, como o Peixoto, em Copacabana,
tem status de bairro. É o charmoso Concha y Toro, com
suas ruas de paralelepípedo e seu conjunto de sobrados
neoclássicos. Aproveite e fique pelo Zully, o restaurante
mais romântico da cidade. O trademark local é a
escadaria de mármore branco pontilhada de pétalas
de rosa. Nas noites quentes, o terraço à luz de
velas com vista para a praça é matador.
Doidas
baladas. Santiago tem uma noite forte, a melhor parte dela vivida
em casas inusitadas. Como o Boulevard Lavaud, que divide os
trabalhos com a Peluquería Francesa, uma barbearia na
ativa desde 1868. O bar espalha suas mesas entre pias de lavar
a cabeça e secadores gigantes.
O economista brasileiro Thales de Freitas é entusiasta.
"Sempre levo meus amigos do Brasil." A cidade também
gosta de esconder suas melhores baladas em imóveis sem
identificação. Como o Ky, um casarão cheio
de ambientes - de um salão para jantar ouvindo mazurcas
a uma pista com um soldado de chumbo de 3 metros entre palmeiras.
A dolorosa chega numa charmosa arquinha de marchetaria. Ao sair,
lá pelas 3 da madrugada, a outra casa sem identificação
a procurar é a La Feria, disco eletrônica com DJs
gringos e esferas que flutuam estranhamente no ar. Qualquer
explicação para o fenômeno a essa hora é
convincente.